quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Há ocasiões, na sucessão dos momentos do cotidiano, em que a própria vida se faz canção. Indescritíveis horas de graça em que o infinito se debruça sobre a frágil argila humana.
Um silêncio, uma palavra. A poesia do sol nascente ou a nostalgia do entardecer. Um pensamento oportuno. Um salmo litúrgico. Uma prece.
Uma carta que nos chega, um telefonema que recebemos. As asas de uma borboleta, o sorriso de uma criança, a serenidade de um adulto, a paciência de um ancião cruvado pela idade.
A frase de um livro, a mensagem de um cartaz, as notas suaves de uma canção-ternura ferindo nossa sensibilidade, acordando felizes vivências de outrora.
A linguagem das flores, o canto dos pássaros, o verde-azul do oceano, a chuva suave tamborilando poemas na vidraça das janelas. Coisas pequenas que trazem mensagens tão grandes! Acontecimentos miúdos que falam tão alto, tocam tão fundo! Coisas que quase nada que sintetizam o mistério de quase tudo.
Indescritíveis-singelos-momentos colocando dentro de nós um pouco de céu, de verde, de azul. O verde da esperança. O azul do entusiasmo. Uma nesga de eternidade.
Há momentos, na vida em que a própria vida se faz poema, canção. Mas é preciso estar atento, sem pressa. Porque o essencial não tem horário certo, agenda programada.
Para captar o mistério, o fluxo e refluxo do cotidiano, é preciso estar atento, disponível, naquela expectativa de quem aguarda a mais querida das visitas.

No misterioso reino do amor, nada é pequeno, insignificante, nem mesmo uma flor.
Mas, para entender seu recado, é preciso ser humilde, despojado, bebendo as mensagens sem pressa, com muito vagar.
Em clima de silêncio, vulnerabilidade, emoção.
De joelhos, como quem reza, emocionado, junto ao sacrário, diante do altar.

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